Não vou falar sobre o look da Melania Trump na posse do marido, porque todo mundo falou disso à exaustão, mas vou retomar esse assunto meio atrasada, porque:
Estava de férias e respeito minhas férias.
Eu tenho um tempo lento (ou talvez seja um tempo normal que só parece lento por conta do imediatismo das redes sociais) para maturar ideias, pesquisar, aprofundar e fazer conexões que valham de algo.
Dito tudo isso, não vou falar do look da Melania Trump, mas do que falaram sobre o look dela. Mais especificamente, aqui na minha bolha da consultoria de estilo.
Fiquei positivamente impressionada com a quantidade de consultoras de estilo falando sobre como a moda é política e entendendo a roupa como linguagem.
Para quem estuda moda e já leu uma meia dúzia de teóricos do assunto, isso não é nenhuma novidade, mas, pasmem, essa perspectiva na consultoria de estilo é bem recente.
Acabei de fazer 8 anos na consultoria (mas já tenho quase 20 de moda) e, quando entrei nesse mercado, a corrente dominante, além do tradicional "7 estilos universais", que deu origem a esse mercado e, portanto, sempre esteve por aí, era a da Oficina de Estilo e seus derivados. Nada contra essa corrente – eu amava a Oficina de Estilo. Foram elas, inclusive, que despertaram meu desejo de ser consultora de estilo. Mas o método delas era muito mais ancorado na autoestima e no consumo consciente.
Nessa época, pouco se falava de moda/estilo como sendo políticos e também não se costumava destrinchar como linguagem, pelo menos, não como temos visto hoje. Para se ter uma ideia, no começo da minha carreira, quando eu disse pra minha mentora que queria trabalhar estilo a partir da semiótica francesa, ou seja, pensando estilo como discurso sociocultural, ela me desaconselhou fortemente, dizendo que “consultora de estilo não se interessaria por isso”.
Eu teimei e segui em frente, mas ela era uma pessoa experiente no mercado e tinha suas razões. Afinal, como eu disse, era uma época em que a consultoria de estilo estava olhando apenas para o indivíduo, sem pensar tanto na relação entre esse indivíduo e o espaço social.
Então, como semioticista, eu penso: uau, por mais que a corrente conservadora tenha chegado à consultoria, de outro lado, também avançamos um pouco.
Dito tudo isso, quero fazer algumas ressalvas depois de ter me permitido esse tempo para ler muito, muito do que foi publicado sobre o look da Melania na posse do Trump.
1. Moda é política, sim. Mas não apenas em eventos políticos.
É óbvio e irresistível dizer que moda é política quando estamos analisando o look da primeira-dama na posse do novo presidente de uma das maiores potências mundiais. Ou qualquer outro evento político que seja.
Errado não tá.
Mas moda-estilo-vestir é político todos os dias. Pra todo mundo.
Moda é política quando a mulher gorda não encontra roupa no tamanho dela.
Moda é política quando um homem negro é/se sente constrangido de ir de chinelo a um shopping de elite.
Moda é política quando uma mulher em cargo de liderança escolhe usar blazer. Ou não usar.
Moda é política porque todo corpo no espaço social é um corpo vestido. E o espaço social é um espaço de disputas: de classe, de gênero, de raça, de nacionalidade, de valores morais.
Para quem trabalha com moda-estilo-vestir, é importante entender que nossos discursos sobre esses temas também são escolhas políticas.
Quando eu critico a obsessão das consultoras de estilo em falar sobre elegância, é disso que estou falando.
Não critico nenhuma cliente que queira ser elegante, justamente porque entendo que essa escolha (ou imposição) tem muitas camadas pessoais, emocionais, culturais e sociais que não cabe a mim julgar ou atuar.
Mas entendo que há um posicionamento político (deliberado ou não) quando uma profissional enfatiza que só há um jeito possível de estar no mundo: a elegância.
O tema elegância merece um texto inteiro sobre ele, mas vou resumir dizendo que a elegância é branca, é rica, é magra, é discreta, é bela e recatada.
Se esse é realmente o seu posicionamento, ok. Mas se você repete esse discurso só pra seguir a manada, porque ele é mais fácil ou porque é o que você conhece, repense.
2. Moda é linguagem também.
Mas pelamor, linguagem é muito mais que a mera soma das partes.
O que eu mais vi circular por aí foi: "Melania usou cores escuras que simbolizam austeridade. Melania usou peças estruturadas que simbolizam distanciamento."
Essa análise é especialmente problemática porque, pelo menos nesse caso, ela não é de todo errada, mas deixa de fora contextos mais amplos. E se, nesse caso, ela não está de todo errada, em outros pode estar.
Nem toda roupa justa é opressora.
Nem toda roupa escura é austera.
Nem toda cintura marcada é um retorno ao conservadorismo.
Deu pra pegar a ideia, certo?
Essa é uma visão extremamente reducionista das dinâmicas socioculturais que permeiam a moda. Isso porque se apoia em interpretações baseadas na cultura hegemônica – que, sim, podem fazer sentido nesse contexto específico, mas não necessariamente em todos os casos.
A moda é um sistema semissimbólico, o que significa que cada objeto pode ser interpretado de múltiplas formas, dependendo do contexto, das referências culturais e do olhar de quem lê. Nunca há apenas um único significado fixo.
Vermelho pode ser paixão, pode ser sedução, pode ser afiliação ao PT, pode ser outra coisa qualquer – ou pode não ser nada, inclusive.
Nós só conseguimos ler uma imagem a partir de todo o contexto, e por isso é difícil. E por isso quem tem conhecimento raso sobre o assunto simplesmente não consegue.
Vi um texto maravilhoso da Olivia Merquior dizendo que ela via muito de fetiche na roupa da Melania. Deixo aqui um trechinho, mas sugiro que você leia o post todo:
“O fetiche é um fenômeno que vai além da mera estética ou da associação com sexualidade explícita. Ele envolve desejo, transgressão e poder. Peças como espartilhos, alfaiatarias estruturadas, couro e peles carregam camadas de significados que não se limitam a um retorno ao conservadorismo, mas também evocam controle, submissão, resistência e autonomia. A moda fetichista não apenas veste o corpo — ela o estrutura, molda e codifica dentro de um jogo de dominação e desejo.”
Entender a moda como linguagem é ir além da primeira camada, do óbvio, do que tá posto. Não é fácil, não.
É por isso que, retomando o início desse texto, a maioria dos textos de redes sociais – que precisam ser postados de imediato pra não perder o timing e virar passado – acabam não conseguindo entregar. Falta o tempo da pesquisa, da reflexão, da conexão de ideias.
No fim das contas, entender moda como política e linguagem exige mais do que repetir chavões ou fazer análises apressadas. Exige repertório, contexto, olhar crítico e, principalmente, disposição para enxergar além do óbvio.
Se a moda é disputa, narrativa e construção simbólica, então falar sobre ela sem reconhecer essas camadas é apenas reforçar o senso comum. E se tem uma coisa que a gente não pode se dar ao luxo de fazer, é tratar o vestir – esse ato tão cotidiano e ao mesmo tempo tão poderoso – com superficialidade.
Porque, no fim, pensar moda é pensar sociedade.




"pensar moda é pensar sociedade"
obrigada por esse texto! não aguento mais essas análises. ontem vesti uma saia midi e já fiquei me sentindo “conservadora” de tanto ler esses textos que associam certos tipos de roupas a um só contexto e significafdo