Se eu fosse devota da astrologia poderia culpar o inferno astral, mas a verdade é que tô chegando em Maio (animada pro aniversário mas) me questionando muito sobre o futuro da carreira de Personal Stylist. Mais uma vez, não venho com falsa modéstia, eu sei o que construí ao longo da minha trajetória, sei o que meu trabalho proporcionou para mim, para minha família e para as minhas alunas mas - e aqui divido a pergunta com vocês - pra onde esse mercado tá indo?!
Não tô falando só sobre os sete estilos universais e as conversas vazias de Tiktok, eu quero é abrir uma conversa sobre o que a gente tá vendo como perspectiva de carreira. Me pega demais ver quanta gente ainda não entende que essa também é uma carreira que precisa de investimento, atualização permanente, organização de tempo e processos, estudo e atenção sobre os comportamentos que estão desenhando o futuro.
Não quero pesar o clima mas, vocês já sabem, sou uma especialista em verdades inconvenientes: quem não souber reinventar essa carreira, não vai parar em pé.
Por isso, já levantei algumas questões lá na comunidade Stylebreakers:
Quais são as frentes que uma Personal Stylist precisa dominar para não ser substituída pela inteligência artificial? Que serviços a gente vai oferecer para a geração Z? Que cursos precisamos fazer para nos manter relevantes, e quanto dinheiro precisamos ter para pagar por eles? Que posturas precisamos abandonar para não ter nosso trabalho confundido com um hobby remunerado?
As Stylebreakers trouxeram pontos muito interessantes e quero continuar essa conversa por aqui.
Ana Scalea, que atua há 29 anos na área de moda, levantou a questão da falta de profissionalização, algo que não acontece só na carreira de Personal Stylist, mas na moda como um todo. Eu concordo demais.
Nesses quase 20 anos de atuação, 10 deles como Personal Stylist e educadora, vejo que persiste um senso comum de que “gosto de moda, logo vou trabalhar com isso” ou “sou estilosa (o que quer que isso signifique), logo vou trabalhar com isso”. Tudo bem que essa seja a faísca inicial, mas não basta.
Nos últimos anos, essa banalização se aprofundou, e não só nessa área, mas é dela que posso falar. Tem quem esteja se “formando” no YouTube. O resultado é um trabalho genérico que não se sustenta.
O que me leva à fala da Melissa Miguel: ela diz que seus clientes têm chegado com muito mais consciência do que querem. Pensa comigo: se você está se formando com conteúdo rápido e acessível, sua cliente também tem acesso a esse mesmo conteúdo. Nossa entrega precisa ir além.
Aqui enxergo algumas possibilidades:
Uma é essa capacidade de interpretação e tradução que exige boa dose de teoria, repertório e prática, e não é qualquer um que consegue fazer. Outra é o mão na massa: ser uma resolvedora de problemas do vestir, a profissional que poupa tempo, dor de cabeça e dinheiro da cliente. Porque a IA até pode te dizer o que usar e como montar looks, mas o trabalho real, presencial, no corpo, esse ainda vai depender do ser humaninho.
Ainda sobre IA, que é uma das primeiras coisas que vem à cabeça quando a gente junta as palavras trabalho e futuro: acho que praticamente todos os mercados estão sentindo, ou vão sentir, o impacto. Mas o nosso tem uma especificidade. Estilo acontece no corpo. Por mais que a IA possa dar direcionamentos, é na hora de vestir a roupa nesse corpo que o B.O. começa. Por isso, tenho pensado tanto no desenvolvimento do lado prático, especialmente compras e styling.
Também acredito que ainda vai existir espaço para a Personal Stylist que tiver condições de sair do campo da prescrição e ocupar o campo da interpretação. Mas isso exige três competências: repertório cultural, para ler os símbolos em movimento e entender como contexto transforma significado; inteligência relacional, para escutar o que está realmente em jogo para aquela pessoa no vestir, porque raramente é só roupa; e execução corporal, o que acontece no encontro real entre corpo e roupa, o ajuste, o caimento, a proporção, o que só se resolve presencialmente, com olho treinado.
Dito tudo isso, acredito que pensar o futuro da profissão passa, obviamente, por tecnologia, mas passa também por repensar formatos.
Não tenho resposta para isso. O que sei é que, uma vez que não vamos deixar de usar roupa num futuro próximo, a capacidade de reinventar formatos vai ser muito importante.
Para fechar, uma dose de dados: o Future of Jobs Report 2025, do Fórum Econômico Mundial, aponta que os empregos que vão crescer até 2030 são de dois tipos, os altamente técnicos em tecnologia (não é o nosso caso) e os que dependem de presença humana real (aí sim, somos nós).
As 10 habilidades essenciais para o futuro, segundo o relatório: pensamento analítico; resiliência, flexibilidade e agilidade; liderança e influência social; pensamento criativo; motivação e autoconhecimento; letramento tecnológico; empatia e escuta ativa; curiosidade e aprendizado contínuo; gestão de talentos; orientação para serviço e atendimento ao cliente. O relatório não fala especificamente da nossa profissão, mas vale pensar o quanto essas habilidades já estão, ou não, presentes no nosso trabalho.
Pensar o futuro é tão importante quanto ingrato. Podemos, e como empreendedoras devemos, tentar projetar cenários, mas sem nunca esquecer que o futuro é imprevisível, e que para cada tendência de comportamento que surge, uma contratendência há de emergir também. Não tenho todas as respostas. Mas estou disposta a pensar, refazer, trocar, ajustar.
É inclusive pensando nisso que o tema do evento Stylebreakers desse ano é: Futuros Possíveis. Vamos?



