Outro dia falei sobre a frase “não penso em roupa, porque tenho coisas mais importantes pra pensar” e como esse tema sempre rende, achei que valia fazer uma reflexão sobre o terno, a produtividade e o espírito capitalista. Vamos?
Imagine você uma conversa hipotética entre Steve Jobs e Luís XIV, ambos querendo se vangloriar dos seus feitos em vida – como só dois homens brancos hetero são capazes de fazer.
Luís XIV começa por dizer que, bom, foi rei da França e em seu tempo era chamado de Rei Sol, porque, entre outras coisas, foi ele quem construiu o palácio de Versalhes!
Steve Jobs, já impressionado, mas com a autoestima nada abalada, claro, começa a listar suas criações: o Macintosh”, o iPod, o “iPhone” e o “iPad”.
Luís XIV só pode confiar no sucesso do camarada, porque não tem nem ideia do que seja um iQualquerCoisa e pra que raios isso serve, mas pelo bem da conversa, resolve perguntar a que Steve atribui o seu sucesso.
Entre uma lista, está lá: “ser produtivo e orientado para resultados”. E com isso, vem ele, o famigerado uniforme composto por calça jeans e camiseta de gola alta preta do estilista japonês Issey Miyake (não por acaso, claro). E essa afirmação, minhas amigas, foi o que realmente deixado o Rei Sol estupefato.
Pois pensem vocês que aquele homem de perucas, saltos, joias, maquiagem, achou a ideia de que para ser produtivo é preciso adotar uma estética simples mais incompreensível do que um iPhone.
Sim.
Contei essa anedota aí para mostrar como a ideia de produtividade atrelada à simplicidade estética não é universal e começa em um momento histórico bastante específico. E quem colocou essa ideia nas nossas cabecinhas contemporâneas foi ele. Não, não o Steve Jobs, mas o capitalismo.
Em a Ética Protestante e o Espírito Capitalismo, Weber chama de “ética protestante”, uma mentalidade caracterizada pela disciplina, frugalidade, trabalho árduo e aversão ao desperdício. Essa ética, combinada com a ascensão do capitalismo e o desenvolvimento do sistema econômico moderno, criou as condições para o surgimento do espírito do capitalismo.
Parece contraditório que o mesmo capitalismo que nos empurra para comprar mais e mais e mais, também seja caracterizado pela disciplina e trabalho árduo. Mas é justamente nesse paradoxo que mora boa parte dos dilemas contemporâneos relacionados à Moda e ao vestir – especialmente no que diz respeito à diferenciação de gênero.
Por que veja bem, a materialização da ética protestante, no vestuário, se deu na forma do terno.
O terno foi (e é) a roupa eleita pela burguesia para simbolizar o trabalho, e não qualquer trabalho, mas o trabalho intelectual (não por acaso, aqueles trabalhos a que atribuímos o termo “colarinho branco”).
O terno foi a solução encontrada para representar o novo cenário econômico e social que se estabelecia no século XIX, assinalando a afiliação a uma nova era por sintetizar, ao mesmo tempo, a praticidade, a eficiência, a elegância e a distinção.
É importante notar que a maior marcação de gênero no vestuário surge junto com o terno, não que as roupas de homens e mulheres fossem iguais antes desse período, mas também não eram assim tão diferentes.
As diferenças eram mais em termos de função do que de ideologia. Homens e mulheres usavam maquiagem, peruca, salto, brilhos, brocados, joias, e por aí vai.
O terno marca uma diferenciação ideológica: aos homens (brancos e burgueses, vale dizer), o trabalho intelectual. Às mulheres, o trabalho do cuidado. Aos homens o público. Às mulheres, o privado. Aos homens, o poder. Às mulheres, a beleza.
Entenderam o cenário, certo?
E assim, ainda hoje, o homem tem no terno, a roupa que está acima das críticas. As mulheres tem os paradoxos.
Não à toa, a Moda, essa indústria que faturou R$ 194 bilhões* em 2021, apenas no Brasil, seja considerada “coisa de mulher”, fútil, superficial.
Gosto de trazer esse recorte histórico, porque dizer que “não penso na roupa porque tenho coisas mais sérias pra pensar”, tem historicidade, raça, classe e gênero e está longe de ser uma verdade absoluta.
Pensar no vestir, na roupa, na Moda, chame como quiser, não tem nada de fútil, você só foi levada a acreditar nisso, porque o capitalismo precisou te convencer que você precisa colocar o trabalho, a eficiência e a produtividade acima de tudo.
Numa sociedade em que cobra performance o tempo todo e que toda nossa vida tem de girar em torno da funcionalidade, pensar a roupa como forma de expressão pessoal e cultural, criatividade e divertimento é, sim, uma forma de subversão.




