Tem algumas semanas, bati um papo com uma jornalista da Folha sobre o conservadorismo na moda. (Vou deixar a matéria aqui pra quem quiser ler). Mas me empolguei tanto com o tema que entreguei um textão para a jornalista e achei um desperdício que só algumas aspas fossem lidas. Então, cá estou eu com meus 2 centavos sobre o assunto.
1. Como as mudanças na moda refletem as dinâmicas sociais e políticas em relação aos direitos das mulheres?
A moda sempre é uma expressão do contexto em que está inserida. Ela não cria tendências sozinha – responde ao que já está em curso na sociedade.
O corpo feminino já foi moldado por espartilhos, cintas, saias rodadas e ternos retos, sempre acompanhando mudanças sociais e políticas. Quando as mulheres conquistaram mais liberdade, a moda respondeu com silhuetas soltas e linhas retas. Quando houve pressão para que voltassem ao papel doméstico, a cintura apertou novamente. Agora, em um cenário global onde políticas conservadoras avançam e os direitos das mulheres são questionados, a feminilidade clássica ressurge como tendência.
O crescimento do conservadorismo tem impactado diretamente a estética dominante – seja pela ascensão da chamada "moda modesta", seja pela popularização de um estilo que exalta uma feminilidade polida, discreta e tradicional. O vestuário das tradwives – mulheres que pregam um retorno ao papel da esposa dedicada ao lar – dialoga diretamente com essa tendência, reforçando um imaginário que associa elegância à submissão.
Se antes certos grupos religiosos viam a moda como algo supérfluo ou perigoso, hoje entendem seu poder como ferramenta de influência e adesão a valores específicos. O conceito de feminilidade promovido por essa estética não rejeita o consumo nem se opõe à moda, mas impõe um código rígido: o sofisticado deve ser discreto, o feminino deve ser clássico e a sensualidade deve ser evitada. A questão não é a roupa em si, mas a mensagem que ela carrega.
2. Como você vê esse movimento das casas de alta costura? É um reflexo ou uma forma de reforçar ideologias que oprimem mulheres?
O luxo sempre teve uma relação ambígua com a política. Se, por um lado, a moda pode ser um espaço de experimentação e subversão, por outro, muitas vezes a alta costura alimenta uma elite que deseja manter certos status quo.
A Dior, ao homenagear Saint Laurent e trazer de volta a silhueta de 1958, pode estar apenas brincando com a nostalgia e a estética. Mas, num contexto maior, esse resgate de um ideal feminino “belo, recatado e do lar” ressoa com movimentos conservadores que romantizam o passado.
É claro que a moda não opera em um vácuo. Marcas como a Chanel não estão necessariamente fazendo um discurso político direto, mas a escolha de valorizar certas silhuetas em um momento específico diz algo. Essa volta à feminilidade exagerada pode ser sintomática de uma tentativa de controle mais sutil – o que Silvia Federici explica tão bem em suas análises sobre como a liberdade feminina sempre encontra resistência.
3. Isso deve refletir também no prêt-à-porter?
O impacto no prêt-à-porter pode ser mais diluído, mas ele sempre segue as tendências da alta costura. O que começa nas passarelas logo encontra versões adaptadas para o mercado de massa. Se a cintura marcada se tornar um símbolo aspiracional novamente, é provável que vejamos isso se espalhar para coleções mais acessíveis, fortalecendo esse imaginário de feminilidade tradicional.
Isso não significa que todas as mulheres vão aderir, mas a estética dominante afeta a forma como a sociedade percebe e valoriza certos corpos e comportamentos.
O que é interessante observar é como as mulheres irão reinterpretar essas tendências. Nos anos 1980, por exemplo, a cintura marcada apareceu no power dressing, mas com ombreiras e estrutura rígida, simbolizando poder. Talvez o que vejamos agora seja um novo tipo de feminilidade, apropriada de forma mais autônoma.
Ou talvez seja mais um lembrete de que a moda pode ser tanto uma ferramenta de expressão quanto de repressão – dependendo de quem a controla.
No fim das contas, a moda nunca é neutra. Ela dialoga com os movimentos sociais, reflete mudanças culturais e, muitas vezes, antecipa ou reforça ideologias. A questão não é apenas o retorno de certas silhuetas ou estéticas, mas o que elas significam dentro do nosso contexto atual.
Se há algo que a história da moda nos ensina, é que cada tendência pode ser apropriada e ressignificada de diferentes formas. Cabe a nós decidir se vamos apenas consumir o que nos é apresentado ou se vamos questionar, reinterpretar e construir novos significados para o que vestimos.




Muito boa análise!