Acabei de voltar do Hacktown, um evento de inovação, tecnologia e criatividade que acontece em Santa Rita do Sapucaí, uma cidadezinha no sul de Minas Gerais menor do que o bairro que eu moro em São Paulo e vim compartilhar um pouco de como foi minha experiência.
Só pra contextualizar o que fui fazer num evento de tecnologia: junto com 2 sócios, estou fundando uma startup de moda e tecnologia, a Styletelling AI, que é uma ferramenta de busca inteligente para e-commerce de moda baseada no método Styletelling®, a taxonomia semiótica que eu criei, registrei e já ensinei para centenas de alunas. Já estou trabalhando nesse projeto há 3 anos e agora ele finalmente ganhou o mundo e estamos rodando 2 clientes piloto. É por isso que fui parar no Hacktown.
Enfim, eu podia fazer um mini resumo de todas as palestras muito legais que assisti no evento, mas essa é, de longe, a parte menos interessante de participar de um evento presencial, ainda que o line-up seja um dos grandes atrativos.
E pra explicar o que foi tão legal, me vem à mente um conceito muito queridinho do mundo da tecnologia e que já ouvi umas dezenas de vezes em todos os pitchs e mentorias que já participei: frictionless, ou seja, sem fricção.
Em resumo, uma experiência sem fricção é uma interação onde todos os obstáculos, demoras e burocracias são eliminados para torná-la fluida, rápida e simples. Experiências assim são, de fato, ótimas para o consumo, porque, no menor atrito, pode ser que você desista da compra. É a otimização da compra por impulso.
O filósofo Byung-Chul Han já escreveu um livro inteiro, A Salvação do Belo, sobre uma ideia análoga a essa. No livro, ele fala sobre o nosso fascínio pelo liso, pelo polido, pelo sem atrito: o iPhone, a pele sem poro do filtro, o design sem imperfeição. Pra ele, essa beleza sem resistência é uma beleza morta, uma beleza que não transforma porque não exige nada.
Fricção gera movimento e eu sou devota do movimento. Por isso que acho que eventos presenciais são tão interessantes.
Eventos presenciais são o oposto de frictionless.
Ao vivo as coisas dão errado, saem do controle, chove, não tem comida pra vegetarianos, você prepara uma mala pro frio e faz calor, você erra o caminho, você apresenta sua empresa pra 20 pessoas aleatórias sem saber se ela é uma curiosa ou um potencial investidor e também sem ter a possibilidade de jogar o áudio fora antes de enviar porque você gaguejou.
Você fala com estranhos, você fala com sotaques diferentes. Você ri, você dança, você tropeça, você derruba chocolate na camisa branca, o cabelo bagunça, o batom borra.
É por isso que eventos presenciais costumam ser marcantes, porque geram história pra contar. Até mesmo quando tudo dá errado. E como já me disse minha sábia filha de 6 anos: “mamãe, pra história ser boa ela precisa de um pouco de drama”.
No fim, mesmo sem pensar conscientemente nisso, acho que o que a gente busca num evento presencial é mais do que conteúdo. É repertório. E repertório não é ficar assimilando informação, repertório é como conectamos essas informações. Repertório não é saber citar nomes, datas, fatos, isso é conteúdo, isso o Google tem aos montes. Repertório é sobre contexto: entender de onde as coisas vêm, como se encontram, pra poder criar essa teia de conexões entre o que você já sabe e o que acabou de ver.
Repertório não se constrói com consumo passivo, não se constrói rolando o feed de uma maneira tão distraída, que minutos depois você nem lembra do que viu. Se você não lembra, não tem nem como virar repertório.
Eu acho que a gente constrói repertório quando tá vivendo as coisas de corpo inteiro. É quando você vê um filme, ouve uma música, assiste a um desfile — ou vai a um evento de tecnologia numa cidadezinha no sul de Minas — e se emociona com aquilo, se incomoda com aquilo, sai dali diferente de como entrou. É esse corpo inteiro que faz aquilo te marcar de um jeito que você vai lembrar anos depois, e vai conseguir conectar com outra coisa lá na frente, às vezes sem nem saber muito bem como chegou lá. É o oposto desse consumo rápido e anestesiado que não te leva a lugar nenhum.
É por isso que sair de casa, errar o clima, apresentar sua empresa pra 20 pessoas aleatórias sem saber se são curiosas ou investidoras não é só desconforto gratuito. É estar presente de corpo inteiro. É o tipo de experiência que fica, que gera conexão, que dá contorno pras outras coisas que eu já sei — e são essas conexões, não tão óbvias assim, que fazem meu repertório (e o seu) ficar mais rico.
Afinal, aprender é fazer algo diferente ou ver o mundo de maneira diferente e isso, por mais maravilhoso que seja, sempre vem com uma boa dose de desconforto.
Ou seja, dane-se a experiência sem fricção.
Eu quero mesmo ser incomodada.






Lindo texto, Carol! E me peguei pensando como o mundo offline é abarrotado de possibilidades: muitas vezes, o online me dá a impressão de que só existe tecnologia em Palo Alto!
Que texto perfeito!
Para a nossa profissão e para a vida, não há a melhor versão.