Imagina que a partir de agora, você não escolhe mais suas roupas. Alguém, qualquer pessoa, se ofereceu pra fazer essas escolhas por você.
Você usaria QUALQUER roupa que te dessem pra vestir?
Quando eu falo em QUALQUER roupa, tô dizendo qualquer roupa MESMO. Usaria uma camiseta de uma banda que você detesta? Ou pior, a camiseta do time rival ao seu? Ou ainda uma camiseta de um político que defende tudo aquilo que você abomina? Ou uma roupa que te associa a um grupo que você não se identifica em nada? Algo que te deixa desconfortavelmente sexy? Ou desconfortavelmente conservadora?
Não usaria, né?
Então, preciso te dar uma notícia: você liga pra roupa, sim.
Eu já perdi as contas de quantas pessoas atendi que passaram muitos anos da vida negando a importância das roupas nas suas vidas.
Já vi de tudo: do intelectual que era “inteligente demais pra se preocupar com roupa” e por isso mesmo se vestia exatamente para comunicar que era intelectual, ainda que ele não se desse conta disso até a consultora financeira que não queria perder tempo nem dinheiro com roupa e, adivinhem, perdia tempo, porque cada vez que ela ia se vestir demorava um tempão tentando se decidir diante das opções escassas do armário dela e perdia dinheiro porque, por não pensar em roupa, comprava mal, sem critério e acabava com roupas desconexas que não serviam à vida dela.
Isso não é à toa. Dizer que não liga pra roupa, é um jeito de dizer que você tem coisa mais séria e mais importante pra pensar. Pensar em roupa é coisa de mulher, é frivolidade, futilidade, coisa de menor importância. Dizer que não liga pra roupa é também, pasmem, uma certa forma de status.
E é também uma grande mentira!
A verdade é que se você não vive pelado numa ilha, você pensa em roupa, sim. E quanto mais você se recusa a pensar, aí é que mais pensa. É mais ou menos assim:
Não pensa na roupa na hora de vestir de manhã, aí passa o dia inteiro pensando porque a roupa tá desconfortável e não te deixa esquecer dela.
Não pensa com antecedência na roupa pra uma ocasião importante, digamos uma situação de trabalho, e aí, passa o dia inteiro pensando que está aquém da ocasião.
Não pensa na hora de comprar, acaba com um armário Frankenstein e aí tem que passar muito tempo pensando de manhã pra escolher algo que preste.
Não pensa em roupa, mas pensa que não aparenta estar à altura do cargo que tem.
Não pensa em roupa, mas pensa que não se encaixa nos lugares onde circula.
Não pensa em roupa, mas passa o dia pensando na calça apertada, na alça do sutiã caindo, no botão que fica abrindo.
Não pensa em roupa, mas queria passar uma imagem menos sisuda e mais leve.
Não pensa em roupa, mas queria se sentir mais bonita.
E a lista segue. (Lista essa inteiramente baseada em fatos reais.)
Pensar sobre a roupa não tem a ver, necessariamente, com moda, com tendências. Nem com marca. Nem com luxo. Nem com montação. Não tem a ver com definir um estilo. Pode ter, claro. Mas não precisa.
Afinal, eu não vivo pelada numa ilha (graças a deus, não tenho nenhum talento pra vida selvagem!), então tenho que escolher o que vestir todo santo dia. Alguns dias com mais ânimo, motivação e empenho. Outros, sem tempo e sem carisma.
Mas eu tiro um tempo pra pensar em roupa, justamente porque não quero ficar pensando nisso toda hora. E, principalmente, porque não quero pensar nisso em momentos inconvenientes.
Mas também porque sei que, para além dos motivos práticos, roupa também é uma ferramenta de comunicação.
Tenho cer-te-za que você já torceu o nariz pra alguém por causa da roupa que ela tava vestindo (olá, camiseta do Brasil) ou sentiu uma simpatia imediata quando viu alguém com a camiseta daquela banda obscura que você adora.
Pode ser que seu rolê seja a simplicidade, o conforto, que você não queira nada elaborado, que não conheça um estilista sequer, tendência? Sei nem que isso!
Mas e aí, qual foi a última vez que, não querendo pensar em roupa você só conseguiu pensar nisso?



