Você já teve a sensação de que tá todo mundo se vestindo igual? Nos últimos meses, toda vez que eu vou pesquisar sobre estilo pessoal, me aparecem várias e várias matérias (nacionais e gringas) falando sobre como “tá todo mundo se vestindo igual”. Vira e mexe, eu também ouço algo parecido das minhas alunas e clientes.
(A sensação é tão latente que as Stylebreakers até sugeriram essa pauta como tema de discussão e até por isso resolvi me aprofundar no tema e agora nos encontramos nesse texto aqui em que vou tentar organizar algumas ideias iniciais.)
Mas eu acho que a questão por trás dessa sensação de uniformidade é: como pode que, em pleno 2026, num momento em que nunca tivemos tanto acesso não só à informação de moda, mas também a produtos de moda, não estamos usufruindo dessa abundância?
Eu entendo o questionamento, já me fiz essa pergunta diversas vezes. Mas, quando sentei pra escrever esse texto, a pergunta que surgiu foi outra:
Por que nos incomodamos com essa ideia de uniformidade? Por que achamos que ser diferente, único, original, autêntico é melhor do que ser igual a todo mundo?
Pra pensar sobre isso, eu precisei voltar um pouco no tempo.
Antes da Revolução Industrial se espalhar pela Europa, lá pelo século XIX, uniformidade era luxo. Numa época em que tudo era feito à mão, criar objetos idênticos era dificílimo. Perfeição, simetria, padronização, tudo isso era coisa de rico.
Ao longo do século XIX e começo do XX, com o surgimento das máquinas de costura, teares industriais, prensas mecânicas e, por fim, a linha de montagem simplificou e reduziu o custo de se alcançar a uniformidade. Como resultado, a uniformidade passou a ser associada a itens produzidos em massa, feitos por máquinas, enquanto a assimetria, as peculiaridades, as peças únicas passaram a ser associadas a objetos feitos à mão.
E, assim, a uniformidade perdeu seu prestígio.
Ou seja, a ideia de uniformidade estética está diretamente ligada ao capitalismo e ao consumo de massa. Para o capitalismo, quanto mais pessoas querendo exatamente as mesmas coisas, melhor. É mais fácil, mais rápido, mais barato produzir milhares de camisas todas iguais do que milhares de camisas personalizadas.
O capitalismo funciona melhor quando todo mundo deseja a mesma coisa.
E esse incômodo com a uniformidade não é nada novo. Assim como resistir a ela também tem uma longa história sociopolítica.
Lá pelas décadas de 1860 e 1870 já tinha gente batendo de frente com isso: o Movimento Arts and Crafts, puxado pelo designer têxtil William Morris, dizia que a produção industrial resultava em objeto feio, sem alma. E que só o ofício artesanal conseguia resistir à uniformidade da máquina.
(Eu acrescentaria uma camada: quando a gente fala de roupa, o problema não é só ter peça feia e sem alma. É também excluir corpos que não se encaixam nos padrões, de corpo, de beleza, de gênero, de classe social dominante, mas isso é papo pra outra hora.)
Mas se a Revolução Industrial possibilitou a produção de produtos uniformes em massa, a Revolução Tecnológica levou isso a outro patamar e possibilitou a produção de um imaginário cultural e estético uniforme com um alcance ao redor do globo nunca antes visto.
É por isso que sempre que a pergunta do título aparece, a resposta mais rápida e óbvia é: sim e é tudo culpa do algoritmo.
Essa resposta não é toda errada. Afinal, os algoritmos (não só das redes sociais, mas também da Netflix, do Spotify) são feitos pra mostrar mais daquilo que a gente já gosta ou dedica alguns segundos da atenção. O resultado é que vemos muito mais do mesmo, nosso repertório fica limitado por isso e acabamos todos meio iguais.
Não é só que pessoas do Brasil à China estão consumindo e sendo influenciadas pelas mesmas imagens. Mas também as grandes marcas estão produzindo coisas cada vez mais parecidas, seja porque produzem para mercados globais, seja porque estão usando dados mais detalhados do que nunca pra criar produtos cada vez mais vendáveis.
Essa uniformidade não tá só na forma como a gente se veste. Tá na roupa que as marcas grandes produzem, no que os compradores escolhem pra colocar nas lojas, na forma como pessoas e empresas produzem, divulgam e compartilham imagens.
E aí entramos naquele ciclo: vemos as mesmas coisas, consumimos as mesmas coisas, as marcas interpretam esse consumo como um dado positivo que deve ser repetido e aí vão fazer as mesmas coisas num ciclo sem fim.
Bom, eu simplifiquei bastante a coisa aqui, mas deu pra entender o raciocínio, né?
Mas essa resposta, sozinha, não explica tudo. E não explica, principalmente, por que nos incomodamos com essa ideia de uniformidade e por que estamos perseguindo a autenticidade.
A uniformidade traz tédio, cansaço, falta de interesse — sensações proibidas na economia da atenção. É por isso que autenticidade e originalidade (conceitos diferentes, mas que, muitas vezes, acabam se misturando) passam a ser tão desejados.
(Eu te aconselho a buscar um dicionário pra entender melhor essa diferença, mas vou facilitar sua vida e explicar o seguinte:
Autenticidade é a qualidade daquilo que é genuíno e verdadeiro. Já originalidade é a qualidade do que é inusitado, do que não foi ainda imaginado, dito, feito — ou seja, é aquilo que é inovador.)
É interessante pensar sobre como e por que esses conceitos se confundem porque, de um lado, originalidade diz sobre o desejo pelo novo, por algo que ainda não foi visto ou, pelo menos, não foi exaustivamente visto. Mas de outro, é preciso que essa originalidade soe como verdade e não como performance.
Não me parece coisa simples de alcançar, certo?
Parecer com todo mundo é o caminho mais fácil (e mais barato).
Diante desse combo de homogeneização, massificação e mercantilização de tudo que a gente consome, ser diferente dá muito trabalho. Exige tempo de curadoria, olhar treinado e também — vamos ser sinceras — dinheiro pra comprar de marcas mais autorais e, portanto, diferentes.
Foi pensando nessa dificuldade toda que eu fui parar no Bourdieu.
Lá no fim dos anos 1970, bem antes do doom scrolling, o pensador francês Pierre Bourdieu já tava se perguntando do que se alimenta a uniformidade (em outros termos, mas o raciocínio dele seguia algo mais ou menos por aí). No livro A Distinção (1979), ele defende que gosto não é preferência individual. É uma forma socialmente estruturada de entender e se relacionar com o mundo.
A gente acha que gosto deveria ser expressão de preferência interna, autêntica — e é por isso que a tal da autenticidade é tão valorizada. Só que gosto não é só questão de sensibilidade e inclinação subjetiva. É também produto de relações sociais e da mediação complexa entre o indivíduo, seu desejo de definir a própria identidade, o próprio status (tá tudo lá em Bourdieu).
Gosto e experiência estética são frutos do encontro entre inclinação pessoal e um monte de fatores complexos. Seja você do time do uniforme ou do time da originalidade, você é atravessado por influências externas. Todo mundo é fruto da cultura.
Só que aí mora um problema: essa “abundância cultural” (ou imagética, se preferir) joga a gente num desafio novo: o de selecionar, de decidir o que vale a pena apreciar, diante do tempo limitado que a gente tem versus a quantidade absurda de conteúdo disponível.
Ter mais acesso tem, sem dúvida, um efeito democratizador sobre a liberdade individual de consumo. Mas democratizar o acesso à referência não é o mesmo que democratizar a capacidade de diferenciação.
O caminho mais fácil, o de menos fricção intelectual e social e também o mais barato, é o caminho da uniformidade. Por isso, tenho pensado que a nossa busca por autenticidade-originalidade é também uma busca por distinção ou, em outras palavras, uma forma de status.
Então, tá todo mundo se vestindo igual?
Me parece que se olharmos para as redes sociais a resposta é: mais do que antes, sim. Mas, honestamente, fora das telas, acho que não.
Mas independente da resposta, também acho que não podemos pensar sobre isso como se fosse resultado de escolhas individuais, como preguiça ou falta de criatividade. Acho que é resultado de um sistema que aumenta a tal ponto o acesso cultural que nos sobrecarrega, ao mesmo tempo que aumenta o custo da diferenciação.
E tem um segundo ponto que me parece importante: acho que ficamos incomodados com a uniformidade porque, ainda que inconscientemente, reconhecemos que autenticidade e originalidade são muito difíceis de alcançar. E, como tudo que é mais difícil de alcançar na nossa sociedade, acabam sendo mais valorizadas.
Não estou com isso dizendo que dane-se a criatividade e vamos nos conformar com a mesmice, muito pelo contrário! Eu só acho que mais do que condenar quem sucumbe à uniformidade, vale entender por que o combo autenticidade-originalidade está se tornando algo tão difícil de alcançar. E aí, será que estamos vivendo numa sociedade em que se expressar através da roupa vai se tornando um privilégio de poucos?




Carol abriu mais abas na minha cabeça sobre o assunto.
Mas vamos lá, vou tentar sintetizar o que eu pensei.
1. Na minha visão, sempre foi privilégio se expressar através da roupa. Talvez, o que acontece agora é que as pessoas tem consciência dessa importância e é mais difícil filtrar as informações relevantes para si.
2. Eu concordo que fora do Instagram as pessoas não estão se vestindo todas iguais. Ao mesmo tempo, consigo pensar nas "poderosas do cerrado" ou nas tias Celina do Piauí.
3. Aí eu venho terminar com divagações, será que quem sucumbe a uniformidade chegou nesse lugar por vontade ou buscando autenticidade/originalidade?
O que eu percebo, no dia-a-dia, é que a esmagadora maioria das pessoas (por diversos fatores, mas principalmente sociais) não está preocupada com estilo pessoal, moda, etc. Vai lá e compra o melhor custo-benefício e vida que segue.